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08/06/2013

O modernismo em Portugal II

O segundo modernismo. O «grupo da Presença».

Apesar do que dissemos, o «grupo do Orpheu» não teve logo influência decisiva na literatura portuguesa, que continuou a explorar o sentimentalismo romântico, o historicismo e o tradicionalismo, servidos num esteticismo frásico à Camilo e à Eça. Foi assim que a nova escola não obstou a que se notabilizassem por outros caminhos Teixeira de Pascoais, Afonso Lopes Vieira, Florbela Espanca, António Correia de Oliveira, Júlio Dantas, Carlos Malheiro Dias, Mário Beirão e mais. Quer dizer: simultaneamente com uma literatura de rotura declarada continuou uma literatura de tradição.

Muito maior foi o prestígio do «grupo da Presença», a que chamamos segundo modernismo.
Em 10 de Março de 1927, surgiu em Coimbra uma revista literária lançada por jovens “audaciosos”, acabados de sair da Universidade. Denominava-se Presença. Primeiramente quinzenal e depois mensal, foi aparecendo desde o citado ano até 1940, num total de 54 números. Os seus fundadores, José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, depressa viram as suas ideias a correr pelos meios literários lisboetas e portuenses. Foi graças à Presença que o movimento modernista se impôs a valer.

Ai colaboraram os melhores expoentes da poesia contemporânea: José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Afonso Duarte, Branquinho da Fonseca, Fausto José, Carlos Queirós, Mário Sá Carneiro, Edmundo de Bettencourt, Adolfo Casais Monteiro, Olavo d’Eça Leal, Miguel Torga (Adolfo Rocha), Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Raul Leal, António Pedro, Pedro Homem de Melo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, João José Cachofel, Mário Dionísio, etc.

O grupo presencista, alheando a poesia de toda a ação exterior sobretudo politica (ao contrário do Nacionalismo, do grupo de «A Águia» e «Seara Nova» e do «Integralismo Lusitano»), atirou-a para dentro do homem, fazendo-lhe perscrutar em análises introspetivas toda a sua riqueza interior, todos os movimentos dramáticos da sua alma, para em seguida ao projetar no mundo com verdade, sem fingimentos, sem retóricas.

Logo no primeiro número de Presença, em artigo de fundo, José Régio insurgiu-se contra a arte contrafeita, afetada, imposta de fora, e pronunciou-se por uma arte viva, espontânea, muito humana. Essa arte devia começar por apoiar-se nas forças do subconsciente, expor, mesmo paradoxalmente, impressões e sentimentos e flutuar independentemente de limitações de qualquer ordem ética. Textualmente escreveu em 9 de Fevereiro de 1928:
«O ideal do artista nada tem com o do moralista, do patriota, do crente, do cidadão: quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem igualmente ser poderosos agentes de criação artística, podem ser elementos da vida de uma obra».
Realmente, dentro de um plano puramente metafisico, todas as coisas têm bondade e beleza – omne ens est bonum. Parece que os presencistas não quiseram defender tanto a arte-pela-arte como a negação de limitações à inspiração e atividade do artista.

Enveredando por um psicologismo intelectualista, onde se adivinham influências da psicanálise de Freud e do intuicionismo de Bergson, os poetas do segundo modernismo cedo começaram a manifestar-se com demasiado individualismo e independência, criando divergências até de ordem estética, que levariam alguns deserção.


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