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29/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Sensacionismo

A única realidade da vida é a sensação. A realidade em arte é a consciência da sensação. A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que seja uma sensação para outros. (…) Os princípios da arte são: cada sensação deve ser plenamente expressa, isto é, a consciência de cada sensação deve ser joeirada até ao fundo; a sensação deve ser expressa de tal modo que tenha, a possibilidade de evocar o maior número possível de outras sensações.

Fernando Pessoa, Páginas Intimas e de Auto Interpretação. Lisboa, Ática.


27/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Paulismo

Arte do vago, complexo e subtil, pela exacerbação de certos aspetos do saudosismo, como a “ânsia de novo, mistério, estranheza e audácia”. O paulismo foi o primeiro programa do movimento Orpheu, mas foi uma tendência efémera. A designação de paulismo provém da palavra “paúis” com que é iniciado o poema “Impressões do crepúsculo” de Fernando Pessoa.


26/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Interseccionismo

Processo típico da poesia do modernismo, paralelo às sobreposições dinâmicas da pintura futurista e de que Fernando Pessoa nos deu exemplos acabados nas seis partes do poema “Chuva Oblíqua” – demonstração brilhante de inteligência estética e de capacidade inovadora. O interseccionismo coincide com o aparecimento dos heterónimos. O interseccionismo dá lugar ao sensacionismo.


23/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Futurismo

O futurismo é um movimento literário artístico, com repercussão europeia, mas fundamentalmente italiano. O primeiro manifesto futurista, redigido por Marinetti, aparece, todavia, num jornal francês, Le Figaro, em 1909.
Provoca uma profunda mudança de formas e de temas, caraterizando-se pelo que se poderá chamar um lúcido delírio ou uma involuntária embriaguez. Na poesia, substitui os tradicionais motivos de inspiração lírica, como a flor, a mulher, o amor, por outros que cantam a velocidade, as imagens em movimento, o útil e o prático, os prodígios da técnica, etc. Os poetas usam imagens tiradas dessa mesma técnica, palavras correntes e vigorosas, e recorrem frequentemente à onomatopeia*.
Excessivo, mas arrebatador e dinâmico, o futurismo arrancou a poesia do marasmo esteticista em que vegetava desde o simbolismo e o decadentismo. O dinamismo futurista alcança uma expressão máxima na “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos.
Estiveram ligados ao futurismo, além de Marinetti, Pessoa e Almada, pintores como Léger, Balla e Delaunay; homens das letras como Papini, Maiakowsky, James Joyce e muitos outros.

*Onomatopeia: criação de nomes por harmonia imitativa.


19/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Expressionismo

O expressionismo insiste sobretudo no drama da condição humana, tentando exprimir as forças que agitam a alma ou a dilaceram. A potência do instinto, a angústia e a frustração conduzem a uma representação da humanidade ou da natureza através do disforme e do exacerbado. Os expressionistas inspiram-se sobretudo em Van Gogh, Goya e em Rembrandt. Principais representantes: Munch, Kokoschka, Soutine, Rouault e ultimamente o inglês Francis Bacon.


18/06/2013

Tendências estético-literárias do início do século XX - Decadentismo

O decadentismo, ao contrário do naturalismo ou do simbolismo, não constitui rigorosamente uma escola. No fim do século XIX, influência, como uma espécie de doença da época, alguns artistas um tanto afetado e preciosos, com o culto do individualismo extremo e da torre de marfim.

Na cronologia – e no génio – o caso mais típico é o do Baudelaire, autor de As Flores do Mal. Em Inglaterra, o nome mais representativo é Oscar Wilde. Mário de Sá Carneiro é poeta da geração de Orpheu mais contagiado pelo decandetismo.


15/06/2013

Tendências estético-literárias do inicio do século XX - Cubismo

O nome cubismo foi achado pelo crítico francês Louis Vauxcelles ao contemplar um quadro de Braque onde as casas de uma paisagem se assemelhavam a cubos. Este pintor e Picasso, que trabalharam juntos e complementarmente, entre 1907 e 1914, lançaram o cubismo.

Os pintores que criaram o movimento procuraram desligar-se de toda a subjetividade, de toda a sentimentalidade, de todo o conceito religioso, espiritual ou mesmo cósmico da arte, aspirando a reproduzir as formas puras, geométricas dos objetos. É uma tentativa para eliminar a perspetiva do pintor e para apresentar os objetos em si, desligados do observador.

O grande precursor desta corrente foi Cezanne, que procurou, segundo as suas próprias palavras, tratar a natureza pelo cilindro, pela esfera, pelo cone. O poeta francês Apollinaire, aparentado com esta corrente, resumia-a bem quando disse que a geometria é para as artes plásticas o que a gramática é para a arte do escritor. Os seus princípios representantes além de Picasso e Braque são Juan Gris e Leger.


12/06/2013

Fernando Pessoa e a Heteronímia

Ricardo Reis (dissimulação)
  • Epicurismo: “carpe diem” e disciplina estoica;
  • Indiferença cética; ataraxia;
  • Semipaganismo; classicismo;
  • Vive o drama da fugacidade da vida e da fatalidade da morte.

Álvaro de Campos (fragmentação)
  • Decadentismo – o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações;
  • Futurismo e sensacionismo – exaltação da força, da violência, do excesso; apologia da civilização industrial; intensidade e velocidade (a euforia desmedida);
  • Intimismo – a depressão, o cansaço e a melancolia perante a incapacidade das realizações; as saudades da infância.

Alberto Caeiro (despersonalização)
  • Paganista existencial;
  • Poeta da Natureza e da simplicidade;
  • Interpreta o mundo a partir dos sentidos;
  • Interessa-lhe a realidade imediata e o real objetivo que as sensações lhe oferecem;
  • Nega a utilidade do pensamento; é anti metafísico.

Pessoa Ortónimo (fingimento)
  • Tensão (sinceridade/fingimento; consciência/inconsciência; sentir/pensar)
  • Intelectualização dos sentimentos;
  • Interseccionismo entre o material e o sonho, a realidade e a idealidade;
  • Uma explicação através do ocultismo.




11/06/2013

As Grandes Divisões da Literatura Portuguesa

Época Medieval
Fins do séc. XII até princípio do séc. XVI (1198-1526)
1º Período:
Poesia Trovadoresca
  • Cantigas de Amigo
  • Cantigas de Amor
  • Cantigas de Escárnio e maldizer

Prosa
  • Traduções
  • Cronicões e Nobiliários
  • Novelas de Cavalaria

2º Período:
Prosa
  • Didática – Os Príncipes de Avis
  • Histórica – Os Cronistas (Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina)


Poesia Palaciana (feita no palácio pelos que sabiam ler e escrever)

Época Clássica
Séc. XVI, XVII e XVIII

Renascimento – ou quinhentismo (princípios do séc. XVI até 1580)
Barroco – ou gongórico (1580 até meados do séc. XVIII – 1756)
Neoclassicismo – arcádico ou francês (desde meados do séc. XVIII até 1825, data da publicação de Camões, de Almeida Garrett)

Época Moderna
Desde 1825 até aos nossos dias
1º Momento:
Romantismo – 1825 até 1870 (aparecimento da Geração de 70)
2º Momento:
Realismo, Simbolismo, Nacionalismo – 1870; 1900 (data da morte de Eça de Queirós)
3º Momento
Modernismo, Futurismo, Surrealismo, Neorrealismo, Existencialismo.


1189 ou 1198 – crê-se ser a data mais antiga Cantiga de Amor, de autoria de Paio Soares de Taveirós; esta é a opinião de Carolina Michaéllis.
1385 – Data da revolução liderada pelo Mestre de Avis.
1526 – Ano em que Sá de Miranda regressou de Itália e com ele o Classicismo.
1580 – Data da morte de Camões.
1756 – Data da fundação da Arcádia Lusitana, agremiação literária que tinha por objetivo combater a influência espanhola, substituindo-a pela francesa (fim do Barroco).


09/06/2013

Géneros Literários

Lírico
  • Centrado na 1ª pessoa: eu;
  • Predomínio das funções expressiva e poética da linguagem;
  • Expressão do mundo interior: exprimem-se estados de alma e sentimentos do emissor;
  • Predomínio da subjetividade;
  • Pequenos pormenores descritos;
  • Atemporal;
  • Texto para ser lido;
  • Ausência de elementos não linguísticos;
  • Formas diversificadas.

Expressão subjetiva de sentimentos, ideias e, emoções. O sujeito poético utiliza predominantemente a 1ª pessoa gramatical.

Narrativo
  • Centrado na 3ª pessoa: ele/ela;
  • Predomínio das funções informativa e poética da linguagem;
  • Expressão predominante do mundo exterior: conta-se uma história;
  • Predomínio da objetividade;
  • Descrição pormenorizada e abundante;
  • Situado numa época: tempo longo e não linear;
  • Texto para ser lido;
  • Ausência quase completa de elementos não linguísticos;
  • Conto, novela romance.

Narração de uma ação, suportada por personagens, localizadas no tempo e no espaço e com a presença de um narrador. Predomina a 3ª pessoa gramatical.

Dramático
  • Centrado na relação emissor/recetor: eu – tu;
  • Predomínio das funções apelativa e informativa da linguagem;
  • Expressão predominante do mundo exterior: representa-se uma história;
  • Predomínio da objetividade;
  • Cenário e vestuário em lugar da descrição;
  • Situado numa época: tempo curto e linear;
  • Texto para ser representado;
  • Abundância de elementos não linguísticos;
  • Tragédia, drama, teatro épico, comédia, farsa.
Representação viva de uma ação, suportada por personagens, localizada no tempo e no espaço. Dispensa a presença do narrador porque as personagens atuam diretamente para o público. Predomina o diálogo, logo a 2ª pessoa gramatical.


08/06/2013

O modernismo em Portugal II

O segundo modernismo. O «grupo da Presença».

Apesar do que dissemos, o «grupo do Orpheu» não teve logo influência decisiva na literatura portuguesa, que continuou a explorar o sentimentalismo romântico, o historicismo e o tradicionalismo, servidos num esteticismo frásico à Camilo e à Eça. Foi assim que a nova escola não obstou a que se notabilizassem por outros caminhos Teixeira de Pascoais, Afonso Lopes Vieira, Florbela Espanca, António Correia de Oliveira, Júlio Dantas, Carlos Malheiro Dias, Mário Beirão e mais. Quer dizer: simultaneamente com uma literatura de rotura declarada continuou uma literatura de tradição.

Muito maior foi o prestígio do «grupo da Presença», a que chamamos segundo modernismo.
Em 10 de Março de 1927, surgiu em Coimbra uma revista literária lançada por jovens “audaciosos”, acabados de sair da Universidade. Denominava-se Presença. Primeiramente quinzenal e depois mensal, foi aparecendo desde o citado ano até 1940, num total de 54 números. Os seus fundadores, José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, depressa viram as suas ideias a correr pelos meios literários lisboetas e portuenses. Foi graças à Presença que o movimento modernista se impôs a valer.

Ai colaboraram os melhores expoentes da poesia contemporânea: José Régio, Fernando Pessoa, António Botto, Afonso Duarte, Branquinho da Fonseca, Fausto José, Carlos Queirós, Mário Sá Carneiro, Edmundo de Bettencourt, Adolfo Casais Monteiro, Olavo d’Eça Leal, Miguel Torga (Adolfo Rocha), Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Raul Leal, António Pedro, Pedro Homem de Melo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, João José Cachofel, Mário Dionísio, etc.

O grupo presencista, alheando a poesia de toda a ação exterior sobretudo politica (ao contrário do Nacionalismo, do grupo de «A Águia» e «Seara Nova» e do «Integralismo Lusitano»), atirou-a para dentro do homem, fazendo-lhe perscrutar em análises introspetivas toda a sua riqueza interior, todos os movimentos dramáticos da sua alma, para em seguida ao projetar no mundo com verdade, sem fingimentos, sem retóricas.

Logo no primeiro número de Presença, em artigo de fundo, José Régio insurgiu-se contra a arte contrafeita, afetada, imposta de fora, e pronunciou-se por uma arte viva, espontânea, muito humana. Essa arte devia começar por apoiar-se nas forças do subconsciente, expor, mesmo paradoxalmente, impressões e sentimentos e flutuar independentemente de limitações de qualquer ordem ética. Textualmente escreveu em 9 de Fevereiro de 1928:
«O ideal do artista nada tem com o do moralista, do patriota, do crente, do cidadão: quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem igualmente ser poderosos agentes de criação artística, podem ser elementos da vida de uma obra».
Realmente, dentro de um plano puramente metafisico, todas as coisas têm bondade e beleza – omne ens est bonum. Parece que os presencistas não quiseram defender tanto a arte-pela-arte como a negação de limitações à inspiração e atividade do artista.

Enveredando por um psicologismo intelectualista, onde se adivinham influências da psicanálise de Freud e do intuicionismo de Bergson, os poetas do segundo modernismo cedo começaram a manifestar-se com demasiado individualismo e independência, criando divergências até de ordem estética, que levariam alguns deserção.


06/06/2013

O modernismo em Portugal I

Primeiro Modernismo
Em fins de Março de 1915, apareceu em Lisboa a revista Orpheu, fundada por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Pacheco, Armando Cortes Rodrigues, Alfredo Guisado e outros.
Os autores citados, a que depressa se juntaram Almada Negreiros, Santa Rita Pintor, Ângelo de Lima, António Botto e Raul Leal, quase todos refletindo o cosmopolitismo parisiense, mostravam-se entusiasmados com as novidades do futurismo e começaram a espalhar a estética modernista nos meios literários do país.
Serviram-se para isso de revistas adrede fundadas, todas de vida efémera, mas com sérias repercussões na poesia portuguesa:
  • Orpheu (3 números em 1915)
  • Centauro (1 número em 1916)
  • Exílio, Portugal Futurista (1 número em 1917)
  • Contemporânea (13 números de 1922 a 1923)
  • Athena (5 números em 1924 e 1925)

Em artigos e poemas, os colaboradores destas revistas mostravam-se irreverentes para com as formas e processos artísticos do passado; visavam a originalidade incondicional e à custa de tudo; e, com maior ou menor fidelidade, adotaram o credo futurista, tal qual o expusemos acima.
Como autores mais representativos deste primeiro modernismo, vamos estudar Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa.


03/06/2013

O Modernismo

Origem e características gerais
Em 20 de Fevereiro de 1909, apareceu um fundo no jornal parisiense Figaro o que podemos chamar Manifesto do Futurismo. O movimento tinha sido iniciado em Milão por Marinetti. Estendia-se à política, às artes plásticas, à música e à literatura.

Os dogmas do novo credo estético podem enunciar-se assim:
  • Esquecimento do passado e propósito eficaz de criar e construir o futuro;
  • Desprezo de tudo o que é clássico, tradicional e estático: museus, academias, mestres;
  • Repúdio total do sentimentalismo luarento (ou seja, repúdio do homem contemplativo), e ingresso na vida frenética e ativa (ou seja, exaltamento do homem de ação);
  • Culto da velocidade, da liberdade, da energia, do perigo, da força física e da violência, da máquina;
  • Veneração pela originalidade.

Em concreto, no que respeita à poesia, preceitua-se:
  • O verso livre, sem métrica definida, sem musicalidade;
  • As palavras em liberdade, ainda que tenha de sacrificar-se a correção linguística;
  • A comunicação de ideias de inteligência, sem interferência de imagens e símbolos;
  • A exploração do interior da alma, da inquietação, da insatisfação, do que se não tem e está para vir, das ciências ocultas, da astrologia, do metapsiquismo, com a proscrição absoluta do idealismo romântico.