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07/06/2012

Conhecimento proposicional

Que condições são necessárias para haver conhecimento? (cont.)

Conclusão 1: A verdade é necessária para o conhecimento.
Suponha que afirmo que vi o André ontem de tarde no cinema. Pensei tê-lo visto lá e agora lembro-me, como se ele lá tivesse estado, de que usava um cachecol muito vistoso. Contudo, não acredito que lá estivesse porque me tinha esquecido dos óculos e não podia ver claramente. Pode dizer-se que  sabia (tinha conhecimento de que) que o André estava no cinema?
A resposta é não. Não posso dizer que sabia que o André estava no cinema porque não acredito que ele lá estivesse. Não acredito na proposição «O André estava no cinema ontem à tarde». Só podemos conhecer algo se acreditarmos em algo. Dizer «Eu sei que o André estava no cinema, mas não acredito nisso» não faz sentido. Saber que André estava no cinema, ter conhecimento disso, é acreditar nisso. Seria muito estranho dizer que se conhece a proposição «A Lua é um satélite natural da Terra» e não acreditar nessa proposição.

Conclusão 2: A crença é necessária para o conhecimento ou o conhecimento implica a crença.
Duas das condições normalmente aceites para que uma proposição seja considerada um conhecimento são que ela seja uma crença e que seja verdadeira.
Isto é assim porque, quando conhecemos uma proposição, acreditamos que esta descreve a realidade tal como esta é.
No entanto, podemos acreditar em proposições que são falsas, embora julguemos que são verdadeiras. Nesse caso, não podemos dizer que temos conhecimento, pois, embora possamos acreditar no que não é verdadeiro, não podemos conhecer o que não é verdade.
Se aquilo em que acreditávamos não é verdadeiro, então não conhecíamos. Julgávamos apenas que conhecíamos. Portanto, não basta ter uma crença para ter conhecimento. É preciso também que essa crença seja verdadeira.
Chegámos, ao que parece, a uma caracterização satisfatória de conhecimento: O conhecimento é uma crença verdadeira.
Suponha-se que acredito que André estava no cinema, ou seja, que acredito na proposição «André estava no cinema ontem à tarde» e que essa proposição é verdadeira, mas que não tenho nenhuma prova que isto é  verdade (não o vi porque André passou a tarde no bar do centro comercial onde ficava o cinema). Posso dizer que conheço a proposição «André estava no cinema ontem à tarde» e que essa proposição é verdadeira, mas que não tenho nenhuma prova de que isto é verdade. Posso dizer que conheço a proposição "André estava no cinema ontem à tarde"?
Não, porque isso significaria que o conhecimento era uma simples opinião, uma crença injustificada. Só podemos se tivermos provas ou razões que justifiquem a nossa crença de que algo é verdade.

Conclusão 3: A injustificação é necessária para haver conhecimento.
Temos assim que, para haver conhecimento da proposição P, «André estava no cinema ontem à tarde», temos de acreditar nessa proposição. Mas a crença não é suficiente porque aquilo em que acreditamos tem de ser verdadeiro. Ter crença verdadeira não é nada ainda suficiente para haver conhecimento de P. É preciso que a crença verdadeira que tenho não se deva a um palpite feliz - a uma coincidência feliz entre o que acredito ser verdade e o que realmente aconteceu - mas que seja justificada, isto é, que não seja uma simples opinião, que haja provas da sua veracidade. A justificação é a forma como testamos a verdade das nossas proposições. As nossas crenças verdadeiras são justificadas quando se baseiam nas melhores evidências disponíveis e não há nenhuma evidência que de modo significativo as ponha em causa.
Podemos resumir o que foi exposto apresentando ao mesmo tempo a definição de conhecimento: O conhecimento é uma crença verdadeira justificada, isto é, sustentada por boa razões.
Esta é a teoria clássica sobre o conhecimento e é habitual chamar-lhe teoria da crença verdadeira justificada. Segundo esta teoria, as condições necessárias e suficientes para que S conheço P são:
  • Que P seja verdadeira;
  • Que S acredite em P;
  • Que S tenha uma justificação para acreditar em P.

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