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23/12/2012

O Desenvolvimento Psicossocial: A Teoria de Erikson

De forma psicanalítica (praticou a psicanalise sobretudo com crianças ao contrário do seu mestre), Erikson reconheceu a contribuição de Freud para a compreensão do desenvolvimento. Contundo, apercebeu-se de que Freud insistiu demasiado no poder da sexualidade e das relações familiares, não valorizando como devia a influência dos fatores sociais. A sua teoria – que será comparada com a de Freud no final deste capítulo – será denominada “Teoria do desenvolvimento psicossocial”, não esquecendo que se constrói mantendo alguns pressupostos básicos da doutrina freudiana. Valorizando a interação entre o individuo e o meio sociocultural ao longo de todo o ciclo vital, Erikson entende que o desenvolvimento socioafetivo abrange oito estádios ou idades. Os quatro primeiros estádios decorrem durante a infância, os quatro seguintes durante a adolescência e a idade adulta.
“Erikson construiu a sua teoria a partir de algumas ideias básicas de Freud, tais como a importância da infância no desenvolvimento pessoal, a existência de três estruturas psíquicas fundamentais (Ego, Id e Superego) e de impulsos e motivações inconscientes. Sustentou que a tarefa fundamental da existência é a construção da identidade pessoal. Segundo Erikson, a identidade pode ser concebida como a imagem mental relativamente estável da relação entre o eu e o mundo social nos vários contextos e momentos do processo de socialização. Ao contrário de Freud, a formação da identidade pessoal é um processo que, percorrendo diversos estádios, dura toda a vida. Cada estádio reconfigura e reelabora o estádio anterior a partir do qual emerge. Ao longo da sua existência, cada individuo interroga-se ‘Quem sou eu?’ e em cada estádio, eventualmente, alcança uma resposta diferente. […] Cada estádio distingue-se por uma tarefa específica que o individuo deve cumprir de modo a transitar para o estádio seguinte. Para Erikson estas tarefas têm o nome de crises porque são fontes de conflito no interior do individuo que as vive. A identidade pessoal de cada individuo forma-se segundo o modo como resolve tais crises (períodos de grande vulnerabilidade mas também de potencial crescimento). Erikson acreditava que cada crise é estimulante, dá ao individuo uma ‘sucessão de potencialidades’, novas formas de experienciar e de interagir com o mundo. A personalidade modifica-se e altera-se em virtude do contato com um conjunto cada vez mais amplo de agentes sociais (pais, avós, colegas, professores, empregadores…) e de práticas culturais.O percurso vital de cada individuo desenrola-se no contexto de uma cultura específica. Enquanto a maturação física (abre novas possibilidades e ao mesmo tempo suscita novas exigências sociais) determina a sequência temporal de desenvolvimento de uma particular componente da personalidade, a cultura disponibiliza os instrumentos interpretativos e determina a forma das situações sociais nas quais as crises são enfrentadas.”
[Michael Cole e Sheila Cole, The development of Children, 3ª edição, Freeman, p. 402]


Erikson é partidário, tal como Freud e Piaget, de uma teoria de estádios, sendo cada estádio marcado pela interação entre as influências socioculturais e a vontade do individuo de expandir a sua compreensão de si, da realidade, de modo a enriquecer o seu “espaço vital”. Cada estádio é o momento de uma crise psicossocial ou conflito (termo freudiano). A crise, definida pela necessidade da resolução de uma questão importante, é um ponto de viragem – um período em que o potencial para o crescimento psicossocial é elevado mas em que o individuo também é muito vulnerável. A crise, que pode ser relativamente longa, designa mais a crucial importância do que está em jogo do que uma pressão temporal, uma urgência. Cada crise é uma luta entre alcançar uma qualidade psicológica ou falhar esse objetivo, ou seja, cada conflito confronta duas possibilidades como pares de qualidades psicológicas. Um dos pares é adaptativo e o outro designa um certo grau de desadaptação.

É importante que o ego em desenvolvimento incorpore, em certo grau, ambos os polos do conflito. Possuir em demasia a qualidade psicológica desejada pode criar problemas. Assim, no conflito “confiança versus desconfiança” em relação ao mundo é bom possuir uma cerda dose de desconfiança, para lidar efetivamente com o mundo, dado que este muitas vezes não parece seguro e de confiança. Mas a balança deve tender mais para o valor positivo do que o para negativo, de modo a que surja uma orientação positiva no confronto futuro com a realidade

A qualidade acompanha esta orientação positiva é designada de virtude (ou qualidade e força do Ego). Por outro lado, a crise básica que forma o núcleo de cada estádio não se manifesta somente durante esse estádio. Cada crise é mais saliente durante um estádio específico mas tem as suas raízes em estádios prévios e consequências em estádios posteriores. Por exemplo, o conflito “identidade versus difusão de identidade” é a crise que define a adolescência mas a formação da identidade começa durante os 4 primeiros e anteriores estádios e a identidade que se forma (e o modo como se forma) durante a adolescência influencia e está presente nos 3 estádios finais de um desenvolvimento que se faz segundo o próprio ritmo de cada individuo. A superação bem-sucedida do grande desafio que cada estádio coloca não significa que não tenhamos de voltar a enfrentá-los (sinal de que nunca é absolutamente resolvido). Mesmo quando adultos, podemos ter de nos confrontar com o medo da solidão, abandono e da insegurança, revivendo assim em outro contexto crises características de estádios infantis do desenvolvimento. A nossa odisseia ao longo do ciclo vital significa enfrentar novos desafios e, em certa medida, revisitar antigos conflitos. 


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