Translate

20/05/2012

Teoria do Conhecimento

1- Em todo o conhecimento, um «cognoscente»  e um «conhecido», um sujeito e um objecto encontram-se face a face. A relação que existe entre os dois é o próprio conhecimento. A oposição dos dois termos não pode ser suprimida; esta oposição significa que os dois termos são originariamente separados um do outro, transcendentes um em relação ao outro.
2- Os dois termos da relação não podem ser separados dela sem deixar de ser sujeito e objecto. O sujeito só é sujeito em relação a um objecto e o objecto só é objecto em relação a um sujeito. Cada um deles apenas é o que é em relação ao outro. Estão ligados um ao outro por uma estreita relação; condicionam-se reciprocamente. A sua relação é uma correlação.
3- A relação constitutiva do conhecimento é dupla, mas não é reversível. O facto de desempenhar o papel de sujeito em relação a um objecto é diferente do facto de desempenhar o papel de sujeito em relação a um sujeito. No interior da correlação, sujeito e objecto não são, portanto, permutáveis; a sua função é essencialmente diferente. (...)
4- A função do sujeito consiste em apreender o objecto; a do objecto e poder ser apreendido pelo sujeito e em sê-lo efectivamente.
5- Considerada do lado do sujeito, esta «apreensão» pode ser descrita como uma saída do sujeito para fora  da sua própria esfera e como uma incursão na esfera do objecto, a qual é, para o sujeito, transcendente e heterogénea. O sujeito apreende as determinações do objecto e, ao apreendê-las, introduz-las, fá-las entrar na sua própria esfera.
6- O sujeito não pode captar as propriedades  do objecto senão fora de si mesmo, pois a oposição do sujeito e do objecto não desaparece na união que o acto do conhecimento estabelece entre eles; permanece indestrutível. A consciência desta oposição é um aspecto essencial da consciência do objecto. O objecto, mesmo quando é apreendido, permanece para o sujeito algo de exterior ; é sempre «o objectum», quer dizer, o que está diante dele. O sujeito não pode captar o objecto sem sair de si (sem se transcender); mas não pode ter consciência do que é apreendido, sem entrar em si, sem se reencontrar na sua própria esfera. O conhecimento realiza-se, por assim dizer, em três tempos: o sujeito sai de si, está  fora de si e regressa finalmente a si.
7- O facto de que o sujeito saia de si para apreender o objecto não muda nada neste. O objecto não se torna por isso imanente. As características do objecto, se bem que sejam apreendidas e como que introduzidas na esfera do sujeito, não são, contudo, deslocadas. Apreender o objecto não significa fazê-lo entrar no sujeito, mas sim reproduzir neste as determinações do objecto, numa construção que terá um conteúdo idêntico ao do objecto. O objecto não é modificado pelo sujeito, mas sim o sujeito pelo objecto. Apenas no sujeito alguma coisa se transformou pelo acto do conhecimento. No objecto nada de novo foi criado; mas no sujeito nasce a consciência do objecto, com o seu conteúdo, a imagem do objecto.
Nicolai Hartmann, Les Principes d'une Métaphysique de la Connaissance, Editions Montaigne, vol. 1

Sem comentários:

Enviar um comentário