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10/12/2012

A equilibração e o desenvolvimento cognitivo

O desenvolvimento cognitivo tem como fundamento o desejo natural de assegurar um estado de equilíbrio interno face a um meio em constante transformação. A procura ou tentativa de obter esse estado de equilíbrio denomina-se equilibração. Que equilíbrio se procura? O equilíbrio relativamente estável entre acomodação e assimilação.

Mas a procura do equilíbrio não é sinonimo de estagnação: ela é o motor do desenvolvimento cognitivo porque conduz e níveis superiores de adaptação. O desequilíbrio cognitivo é uma espécie de conflito interno que motiva o sujeito para a aquisição de novas competências e conhecimentos, de novos esquemas e estruturas cognitivas.
“Periodicamente, o equilíbrio entre assimilação e acomodação é perturbado, daí resultando um estado de desequilíbrio. Há consciência desse desequilíbrio quando nos apercebemos de que os nossos atuais esquemas já não são adequados porque passamos muito mais tempo a acomodar do que a assimilar. Quando o desequilíbrio ocorre, o sujeito que procura dar sentido às suas experiências reorganiza os seus esquemas, melhor dizendo, cria novos esquemas que lhe permitam responder às novas situações e aos novos desafios da realidade a que deve adaptar-se. Procura assim um novo estado de equilíbrio. A este processo deu Piaget o nome de equilibração. Para restaurar o equilíbrio, os esquemas anteriormente utilizados e agora desadequados são substituídos por esquemas qualitativamente diferentes, mais avançadas e eficazes na adaptação ao meio.
Uma forma de compreender o processo de equilibração consistirá em adotar a metáfora da criança como cientista, algo que Piaget também faz. Os esquemas ou teorias que as crianças constroem permite-lhes compreender diversas experiências recorrendo, por exemplo, à predição do que acontecerá (‘São sete e meia da manhã, está quase na hora do pequeno-almoço’) ou de quem fará algo. Neste caso, imaginemos que a criança interpreta certos acontecimentos usando este esquema ‘A mãe foi para o emprego, logo é o pai que me vai levar à escola’. Esse esquema (ou teoria) terá de ser modificado e substituído quando a previsão for desmentida por uma nova situação. ‘O pai pensa que já tenho idade suficiente para ir sozinho para a escola, por isso não me vai levar’ será o novo esquema.Vários cientistas ao longo da história consideraram que determinadas teorias continham várias anomalias, isto é, não encontravam a partir de um dado momento correspondência com os factos. Estes não se deixavam assimilar por tais esquemas teóricos e as revisões e modificações efetuadas, revelavam-se insuficientes para dar sentido a novos fatos e descobertas que os punham em causa. Por exemplo, quando Copérnico se apercebeu de que o modelo geocêntrico (a Terra como centro do universo e das órbitas planetárias) era um esquema manifestamente desadequado para compreender os fenómenos naturais, reteve o conceito de objeto central ou de centro, mas apresentou como hipótese explicativa a ideia de que o Sol era o centro e não a Terra (heliocentrismo). Foi uma mudança fundamental na teoria astronómica até então vigente. De tal modo que não é uma simples alteração ou aperfeiçoamento (acomodação) do anterior modelo mas um modelo novo, um novo esquema interpretativo. Uma revolução é o termo apropriado. De modo análogo, as crianças, periodicamente, atingem um ponto em que os seus esquemas já não funcionam adequadamente na resolução de um problema ou na compreensão de uma situação. Torna-se então necessário construir novos esquemas – baseados em esquemas anteriores - que sejam mais adaptativos na relação com o mundo físico e social. Obtém-se assim um novo equilíbrio entre assimilação e acomodação, equilíbrio instável, porque novos desequilíbrios ou conflitos cognitivos irão surgir, exigindo outros níveis de adaptação.”
[Robert V. Kail, Children and Their Development,
Prentice-Hall, pp 143-144]

Piaget dividiu o desenvolvimento cognitivo em quarto grandes estádios, caraterizados por níveis de adaptação qualitativamente distintos que são possíveis devido ao progressivo surgimento de novos esquemas, construídos a partir das experiências do sujeito em estádios precedentes.


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