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25/12/2012

Os estádios do desenvolvimento psicossocial - 1ª idade

Relativamente ao desenvolvimento, Erikson propõe um conjunto de estádios cuja singularidade se deve ao conflito nele vivido. O conflito consiste numa polaridade emocional que tem uma vertente positiva e uma vertente negativa. O individuo deve decidir entre duas alternativas – uma que é benéfica e outra que, em certa medida, é prejudicial (pode ter efeitos negativos no desenvolvimento). Um desenvolvimento equilibrado e bem-sucedido depende da resolução conveniente do conflito próprio de cada estádio, de modo a que a vertente positiva predomine. Resolver positivamente cada crise é decisivo para a constituição de uma personalidade bem adaptada capaz de enfrentar equilibradamente os desafios e problemas em que a existência é fértil.
Erikson dividiu o desenvolvimento em oito estádios psicossociais a que chamou “idades da vida”.

1ª Idade – Confiança versus Desconfiança (do nascimento aos 18 meses)

Neste primeiro estádio – também denominado oral-sensorial – o recém-nascido depende totalmente dos outros para satisfazer as suas necessidades. Se receber amor daqueles que constituem o meio envolvente imediato (pais, ama, irmãos) e as suas atividades de descoberta forem encorajadas e estimuladas de modo equilibrado, o bebé desenvolverá confiança não só nos outros como também em sim mesmo. Se receber pouco amor e atenção aprenderá a não ter confiança nem em si nem nos outros.
Para Erikson, a interação do bebé com a mãe é decisiva na forma como se resolve o conflito ou a tensão entre confiança e desconfiança. O desenvolvimento de um sentimento de desconfiança demasiado acentuado tornará a criança tímida, retraída, insegura, quanto às suas capacidades e pouco à vontade no confronto com os obstáculos do meio.
O modo como a criança responde à questão básica "Será o meu mundo social previsível e protetor?" terá reflexos no seu comportamento futuro.
Se a vertente positiva triunfa ou predomina, a virtude (qualidade do Ego) que se desenvolve tem o nome de esperança


23/12/2012

O Desenvolvimento Psicossocial: A Teoria de Erikson

De forma psicanalítica (praticou a psicanalise sobretudo com crianças ao contrário do seu mestre), Erikson reconheceu a contribuição de Freud para a compreensão do desenvolvimento. Contundo, apercebeu-se de que Freud insistiu demasiado no poder da sexualidade e das relações familiares, não valorizando como devia a influência dos fatores sociais. A sua teoria – que será comparada com a de Freud no final deste capítulo – será denominada “Teoria do desenvolvimento psicossocial”, não esquecendo que se constrói mantendo alguns pressupostos básicos da doutrina freudiana. Valorizando a interação entre o individuo e o meio sociocultural ao longo de todo o ciclo vital, Erikson entende que o desenvolvimento socioafetivo abrange oito estádios ou idades. Os quatro primeiros estádios decorrem durante a infância, os quatro seguintes durante a adolescência e a idade adulta.
“Erikson construiu a sua teoria a partir de algumas ideias básicas de Freud, tais como a importância da infância no desenvolvimento pessoal, a existência de três estruturas psíquicas fundamentais (Ego, Id e Superego) e de impulsos e motivações inconscientes. Sustentou que a tarefa fundamental da existência é a construção da identidade pessoal. Segundo Erikson, a identidade pode ser concebida como a imagem mental relativamente estável da relação entre o eu e o mundo social nos vários contextos e momentos do processo de socialização. Ao contrário de Freud, a formação da identidade pessoal é um processo que, percorrendo diversos estádios, dura toda a vida. Cada estádio reconfigura e reelabora o estádio anterior a partir do qual emerge. Ao longo da sua existência, cada individuo interroga-se ‘Quem sou eu?’ e em cada estádio, eventualmente, alcança uma resposta diferente. […] Cada estádio distingue-se por uma tarefa específica que o individuo deve cumprir de modo a transitar para o estádio seguinte. Para Erikson estas tarefas têm o nome de crises porque são fontes de conflito no interior do individuo que as vive. A identidade pessoal de cada individuo forma-se segundo o modo como resolve tais crises (períodos de grande vulnerabilidade mas também de potencial crescimento). Erikson acreditava que cada crise é estimulante, dá ao individuo uma ‘sucessão de potencialidades’, novas formas de experienciar e de interagir com o mundo. A personalidade modifica-se e altera-se em virtude do contato com um conjunto cada vez mais amplo de agentes sociais (pais, avós, colegas, professores, empregadores…) e de práticas culturais.O percurso vital de cada individuo desenrola-se no contexto de uma cultura específica. Enquanto a maturação física (abre novas possibilidades e ao mesmo tempo suscita novas exigências sociais) determina a sequência temporal de desenvolvimento de uma particular componente da personalidade, a cultura disponibiliza os instrumentos interpretativos e determina a forma das situações sociais nas quais as crises são enfrentadas.”
[Michael Cole e Sheila Cole, The development of Children, 3ª edição, Freeman, p. 402]


Erikson é partidário, tal como Freud e Piaget, de uma teoria de estádios, sendo cada estádio marcado pela interação entre as influências socioculturais e a vontade do individuo de expandir a sua compreensão de si, da realidade, de modo a enriquecer o seu “espaço vital”. Cada estádio é o momento de uma crise psicossocial ou conflito (termo freudiano). A crise, definida pela necessidade da resolução de uma questão importante, é um ponto de viragem – um período em que o potencial para o crescimento psicossocial é elevado mas em que o individuo também é muito vulnerável. A crise, que pode ser relativamente longa, designa mais a crucial importância do que está em jogo do que uma pressão temporal, uma urgência. Cada crise é uma luta entre alcançar uma qualidade psicológica ou falhar esse objetivo, ou seja, cada conflito confronta duas possibilidades como pares de qualidades psicológicas. Um dos pares é adaptativo e o outro designa um certo grau de desadaptação.

É importante que o ego em desenvolvimento incorpore, em certo grau, ambos os polos do conflito. Possuir em demasia a qualidade psicológica desejada pode criar problemas. Assim, no conflito “confiança versus desconfiança” em relação ao mundo é bom possuir uma cerda dose de desconfiança, para lidar efetivamente com o mundo, dado que este muitas vezes não parece seguro e de confiança. Mas a balança deve tender mais para o valor positivo do que o para negativo, de modo a que surja uma orientação positiva no confronto futuro com a realidade

A qualidade acompanha esta orientação positiva é designada de virtude (ou qualidade e força do Ego). Por outro lado, a crise básica que forma o núcleo de cada estádio não se manifesta somente durante esse estádio. Cada crise é mais saliente durante um estádio específico mas tem as suas raízes em estádios prévios e consequências em estádios posteriores. Por exemplo, o conflito “identidade versus difusão de identidade” é a crise que define a adolescência mas a formação da identidade começa durante os 4 primeiros e anteriores estádios e a identidade que se forma (e o modo como se forma) durante a adolescência influencia e está presente nos 3 estádios finais de um desenvolvimento que se faz segundo o próprio ritmo de cada individuo. A superação bem-sucedida do grande desafio que cada estádio coloca não significa que não tenhamos de voltar a enfrentá-los (sinal de que nunca é absolutamente resolvido). Mesmo quando adultos, podemos ter de nos confrontar com o medo da solidão, abandono e da insegurança, revivendo assim em outro contexto crises características de estádios infantis do desenvolvimento. A nossa odisseia ao longo do ciclo vital significa enfrentar novos desafios e, em certa medida, revisitar antigos conflitos. 


20/12/2012

Erik Erikson (1902 - 1994)

A construção da identidade pessoal, tema central da teoria de Erikson, assumiu também um significado especial na vida do autor.

Erikson nasceu em Hamburgo, na Alemanha, de pais dinamarqueses. A sua mão foi abandonada pelo marido pouco antes do nascimento de Erikson. Três anos mais tarde casou com Theodor Homburger, um médico judeu. Durante vários anos Erikson pensou ser este o seu verdadeiro pai.

Cresceu como Erik Homburger, um judeo com aparência de escandinavo. Nos meios judaicos era tratado como nórdico e na escola como judeu. Com dificuldades de integração passou a formar em si mesmo a imagem de marginal, de outsider. Na fase da adolescência, ficou a saber que o seu pai biológico era não um judeu alemão mas sim um dinamarquês, o que mais perturbou o sentido da sua identidade.

A partir dos 20 anos viajou pela Europa, depois de se ter formado em Belas-Artes. Foi para Florença com a intenção de se tornar professor de arte. Tornou-se pintor de retratos. Insatisfeito, não conseguindo encontrar uma ocupação estável e cada vez mais confuso quanto à sua identidade, Erikson decidiu ir a Viena. Aí começou a trabalhar como professor numa escola destinada aos filhos dos pacientes e dos amigos de Freud.

Foi a oportunidade, que não desperdiçou, de entrar em contacto com a Psicanálise.

Conheceu vários psicanalistas e sobretudo Freud e a sua filha Anna. Foi esta que o orientou e treinou, dando-lhe a conhecer os segredos da terapia psicanalítica.

Em 1933, Erik Homburger, fixou residência nos Estados Unidos. Hitler acabara de ascender ao poder na Alemanha. Na Améria tornou-se o primeiro psicanalista de crianças, em Chicago. Tornou-se famoso com a obre Infância e Sociedade onde realçava a importância da cultura e da sociedade na formação da identidade de casa individuo. Leccionou nas famosas universidades de Berkeley, Yale e Harvard. Em 1939 decidiu naturalizar-se e adoptar o apelido Erikson. A escolha deste nome representava simbolicamente que tinha encontrado a sua identidade.

O tema da identidade, a afirmação de que o percurso existencial de cada individuo gira em torno da construção de um “sentimento de identidade”, define a originalidade da doutrina de Erikson. Atribuindo especial importância à adolescência mas não reduzindo a formação de identidade a esse período, Erikson é um autor incontornável no estudo do desenvolvimento.

A sua teoria psicossocial, mais otimista do que a visão freudiana do desenvolvimento, centra-se no individuo saudável (estudou várias biografias de personalidades famosas) e não no individuo neurótico e perturbado. A personalidade desenvolve-se ao longo de toda a vida e nenhuma idade da vida é, a bem dizer, intrinsecamente mais importante do que as outras. Cada estádia, em certa medida, é uma nova oportunidade de desenvolvimento. A formação da identidade é uma tarefa sempre em aberto.


18/12/2012

Piaget: a perspetiva construtivista

Piaget, nascido na Suíça e biólogo de formação, centrou a sua atividade no estudo do desenvolvimento intelectual e cognitivo do ser humano. Em oposição ao behaviorismo, o construtivismo de Piaget acredita que os processos mentais podem e devem ser estudados cientificamente. Assim, embora não possamos observar os processos cognitivos diretamente, podemos observar comportamentos e inferir a partir destes o tipo de procedimentos cognitivos que os acompanham e sustentam.
Para Piaget, o objeto da Psicologia não se reduz ao simples estudo dos processos mentais nem se limita ao estudo do comportamento observável.
Definindo o conhecimento como processo de adaptação ao meio, Piaget entendê-lo-á como um comportamento que resulta da interação organismo-meio. Opor-se-á, assim, aos gestaltistas que consideravam que a capacidade de organização percetiva do mundo era essencialmente inata e aos behavioristas, que reduziam o ser humano a um organismo relativamente passivo que respondia ao meio quando deste provinha o estímulo apropriado.
Não somos portanto simples produtos do meio (temos um papel ativo na construção dos esquemas ou estruturas que nos permitem conhecer e interpretar a realidade para resolver os problemas que ela nos coloca).

Construtivismo de Piaget
Superação do inatismo gestaltista e do empirismo behaviorista

Inatismo – considera que as estruturas percetivas que organizam a experiência do meio já estão completamente pré-formadas.
Empirismo – considera que as estruturas que nos permitem conhecer e interpretar o mundo são retiradas da experiência.
O construtivismo de Piaget considera que as estruturas que nos permitem conhecer e agir sobre o mundo se desenvolvem mediante a maturação biológica e o intercâmbio sujeito-meio. O nosso desenvolvimento intelectual é uma série de modificações e adaptações que visam resolver os problemas postos pelo meio.

Devemos a Piaget (em colaboração com um outro psicólogo chamado Fraisse) uma fórmula inovadora de explicar o comportamento humano.
Estudando o desenvolvimento da inteligência, Piaget chegou à conclusão de que a nossa evolução intelectual é um processo continuo em que os esquemas e estruturas mentais se alteram e modificam no contacto com o mundo (os objetos) e o contacto com o mundo se modifica de acordo com os esquemas que vamos construindo na relação com o meio. Tendo em conta essa conclusão, Piaget apresentou a seguinte fórmula explicativa do comportamento:
R = f (S – P)
Esta fórmula traduz-se do seguinte modo:
O comportamento é uma resposta que varia em função da interação entre a personalidade do sujeito (P) e a situação (S). Assim, para compreendermos o comportamento de um individuo em determinado caso temos de considerar dois fatores:
  • A influência da personalidade na situação (P – S)
  • A influência das situações anteriormente vividas por alguém na formação da sua personalidade (S - P)

Os fatores S e P agem um sobre o outro, isto é, interagem, não podem ser considerados isoladamente.
Uma mesma situação pode motivar reações (respostas ou comportamentos) diferentes. Isso significa, para Piaget, que o comportamento não é um mero reflexo automático, ou seja, não é uma resposta absolutamente condicionada por um conjunto de estímulos externos.
Sendo assim, a fórmula proposta por John Watson, R = f(s), revela-se simplista: reduz o comportamento à condição de variável apenas dependente da situação. Há que ter em conta outros fatores, já não meramente externos (os sentimentos do sujeito, o seu temperamento, o seu desenvolvimento intelectual e moral, o modo como assimilou as experiências vividas na infância, a forma como decorreu a sua educação e socialização).

O construtivismo é uma abordagem psicogenética e interaccionista do comportamento. Mostra como as estruturas que nos permitem conhecer e agir sobre a realidade se formam na interação com o meio. O comportamento humano não é algo determinado pelo meio mas sim construído ao longo de um desenvolvimento em que interagem disposições biológicas do sujeito (potencialidades genéticas), a aprendizagem efetuada com os outros e a nossa atividade sobre o meio. O meio, ao contrário do que pensava o behaviorismo, não é um conjunto de situações independentemente do sujeito que o determinam a agir deste ou daquele modo. O meio é um “cenário” não absolutamente objetivo porque nele de algum modo está incorporada a atividade humana que o configura. Neste sentido, o homem é produto e produtor do meio. Por outro lado, para compreender o meio e entender como ele pode influenciar o sujeito é necessário dar atenção ao sujeito, conhecer como, por exemplo, se processa o seu desenvolvimento intelectual e moral. Assim, ao contrário do que pensava Watson, Piaget entende que a compreensão dos processos mentais (pensamento, raciocínio) e do seu grau de desenvolvimento é necessária para integralmente esclarecer o comportamento. 


14/12/2012

Teoria de Piaget - conceitos básicos

Para Piaget o desenvolvimento cognitivo resulta da interação entre fatores hereditários e ambientais. Mas o que prevalece é a atividade do sujeito, inventando e reinventado conhecimentos.

Piaget considerava que o desenvolvimento cognitivo influenciava e controlava os aspetos social, moral e emocional do desenvolvimento global.

O desenvolvimento cognitivo é um processo dinâmico de adaptação ao meio.

Esquemas – padrões de ação e categorias ou estruturas mentais que organizam a interação do sujeito com o meio.

A adaptação envolve a construção de esquemas através da interação com o meio sendo possível devido a duas atividades complementares: a assimilação e a acomodação.

Assimilação – processo adaptativo que consiste em incorporar novas informações nos esquemas existentes.

Acomodação – processo adaptativo que consiste em ajustar os esquemas existentes às novas informações e experiências modificando-os.

O processo de assimilação implica sempre um mínimo de acomodação, não é pura e simples recetividade.

Em várias situações não há nem acomodação nem assimilação. Se não sei alemão não tentarei dar sentido à conversar entre dois alemães.

Equilibração – o processo que consiste em procurar estabelecer um equilíbrio entre assimilação e acomodação. Excessiva assimilação e excessiva acomodação impedem ou perturbam o desenvolvimento cognitivo. Periodicamente, somente novos ou estruturas permitem que assimilemos e acomodemos de modo relativamente equilibrado. O desejo de equilíbrio move o desenvolvimento porque nos conduz a patamares superiores de equilíbrio e por isso de adaptação ao real.

O equilíbrio entre assimilação e acomodação nunca é absoluto.


10/12/2012

A equilibração e o desenvolvimento cognitivo

O desenvolvimento cognitivo tem como fundamento o desejo natural de assegurar um estado de equilíbrio interno face a um meio em constante transformação. A procura ou tentativa de obter esse estado de equilíbrio denomina-se equilibração. Que equilíbrio se procura? O equilíbrio relativamente estável entre acomodação e assimilação.

Mas a procura do equilíbrio não é sinonimo de estagnação: ela é o motor do desenvolvimento cognitivo porque conduz e níveis superiores de adaptação. O desequilíbrio cognitivo é uma espécie de conflito interno que motiva o sujeito para a aquisição de novas competências e conhecimentos, de novos esquemas e estruturas cognitivas.
“Periodicamente, o equilíbrio entre assimilação e acomodação é perturbado, daí resultando um estado de desequilíbrio. Há consciência desse desequilíbrio quando nos apercebemos de que os nossos atuais esquemas já não são adequados porque passamos muito mais tempo a acomodar do que a assimilar. Quando o desequilíbrio ocorre, o sujeito que procura dar sentido às suas experiências reorganiza os seus esquemas, melhor dizendo, cria novos esquemas que lhe permitam responder às novas situações e aos novos desafios da realidade a que deve adaptar-se. Procura assim um novo estado de equilíbrio. A este processo deu Piaget o nome de equilibração. Para restaurar o equilíbrio, os esquemas anteriormente utilizados e agora desadequados são substituídos por esquemas qualitativamente diferentes, mais avançadas e eficazes na adaptação ao meio.
Uma forma de compreender o processo de equilibração consistirá em adotar a metáfora da criança como cientista, algo que Piaget também faz. Os esquemas ou teorias que as crianças constroem permite-lhes compreender diversas experiências recorrendo, por exemplo, à predição do que acontecerá (‘São sete e meia da manhã, está quase na hora do pequeno-almoço’) ou de quem fará algo. Neste caso, imaginemos que a criança interpreta certos acontecimentos usando este esquema ‘A mãe foi para o emprego, logo é o pai que me vai levar à escola’. Esse esquema (ou teoria) terá de ser modificado e substituído quando a previsão for desmentida por uma nova situação. ‘O pai pensa que já tenho idade suficiente para ir sozinho para a escola, por isso não me vai levar’ será o novo esquema.Vários cientistas ao longo da história consideraram que determinadas teorias continham várias anomalias, isto é, não encontravam a partir de um dado momento correspondência com os factos. Estes não se deixavam assimilar por tais esquemas teóricos e as revisões e modificações efetuadas, revelavam-se insuficientes para dar sentido a novos fatos e descobertas que os punham em causa. Por exemplo, quando Copérnico se apercebeu de que o modelo geocêntrico (a Terra como centro do universo e das órbitas planetárias) era um esquema manifestamente desadequado para compreender os fenómenos naturais, reteve o conceito de objeto central ou de centro, mas apresentou como hipótese explicativa a ideia de que o Sol era o centro e não a Terra (heliocentrismo). Foi uma mudança fundamental na teoria astronómica até então vigente. De tal modo que não é uma simples alteração ou aperfeiçoamento (acomodação) do anterior modelo mas um modelo novo, um novo esquema interpretativo. Uma revolução é o termo apropriado. De modo análogo, as crianças, periodicamente, atingem um ponto em que os seus esquemas já não funcionam adequadamente na resolução de um problema ou na compreensão de uma situação. Torna-se então necessário construir novos esquemas – baseados em esquemas anteriores - que sejam mais adaptativos na relação com o mundo físico e social. Obtém-se assim um novo equilíbrio entre assimilação e acomodação, equilíbrio instável, porque novos desequilíbrios ou conflitos cognitivos irão surgir, exigindo outros níveis de adaptação.”
[Robert V. Kail, Children and Their Development,
Prentice-Hall, pp 143-144]

Piaget dividiu o desenvolvimento cognitivo em quarto grandes estádios, caraterizados por níveis de adaptação qualitativamente distintos que são possíveis devido ao progressivo surgimento de novos esquemas, construídos a partir das experiências do sujeito em estádios precedentes.


07/12/2012

Assimilação e Acomodação

Os esquemas mudam constantemente ou consolidando-se ou transformando-se noutros mais complexos, adaptando o sujeito à sua crescente e cada vez mais diversificada interação com o meio.

Segundo Piaget a adaptação cognitiva ao meio implica a intervenção combinada de dois processos: a assimilação e a acomodação.

A assimilação é o processo que integra ou incorpora novas informações e experiências em esquemas já existentes.

A assimilação verifica-se quando usamos esquemas existentes para dar sentido aos novos acontecimentos e experiências. Mediante a assimilação respondemos a uma nova situação de modo semelhante ao que adotamos numa situação familiar, sem necessidade de modificar os esquemas existentes. Há assimilação quando um novo objeto ou situação suscita uma atividade que já faz parte do nosso reportório. Por exemplo, os bebés usam o esquema de sucção não só para se alimentarem como também para chuchar no dedo. A criança que aprendeu a segurar num garfo demonstra assimilação ao segurar numa colher. O esquema de agarrar funciona não só com bonecos mas também como blocos de lego e diversos objetos de pequena dimensão.

Quando temos de alterar os esquemas existentes para responder a uma nova situação dá-se a acomodação. A acomodação é o processo de ajustamento dos esquemas existentes (ou criação de novos) quando as novas informações e experiências não podem ser assimiladas.

Se os dados não podem ser incorporados nos esquemas existentes é necessário o desenvolvimento de esquemas ou estruturas mais apropriadas. Por exemplo, a criança aprendeu a agarrar diversos objetos de pequena dimensão com uma mão bem cedo se apercebe de que outros objetos só podem ser agarrados e erguidos com duas mãos e que muitos outros não podem ser levantados; qualquer progenitor atento sabe que as primeiras vezes que se dá de comer a uma criança com uma colher são uma experiência desconcertante para aquela: a criança tenta absorver o conteúdo da colher utilizando um esquema (o da sucção) até aí bem-sucedido. Os efeitos são bem concebidos. Contudo, em breve a criança aprenderá a adaptar a boca e a língua ao novo meio de alimentação. Realiza então uma alteração do esquema que possuía para conseguir responder a uma nova situação; aprender uma língua estrangeira é igualmente uma boa ilustração do que se entende por acomodação.

Piaget afirmou que não existe assimilação sem acomodação. Queria dizer que mesmo quando assimilamos tal atividade exige um mínimo de acomodação. Um esquema como o da sucção utilizado para tirar o leite de um biberão pode ter de sofrer ligeiras alterações quando se muda de tetina e esta tem um tamanho diferente e um outro formato.

Em suma, adaptamo-nos a diversas e cada vez mais complexas situações usando os esquemas existentes sempre que estes se revelam funcionais e dão sentido aos novos dados (assimilação) e modificando os esquemas utilizados sempre que a respostas às situações o exigir (acomodação).


04/12/2012

Como se processa o desenvolvimento cognitivo? Os instrumentos e os processos fundamentais.

Piaget, influenciado pela sua formação em Biologia, via o desenvolvimento cognitivo à imagem dos processos biológicos. A necessidade de conhecer é um impulso inato, uma manifestação particular da necessidade de sobrevivência. Como só sobrevivemos adaptando-nos ao meio, o desenvolvimento cognitivo é uma forma de adaptação ao meio. A adaptação cognitiva ao meio implica mudanças estruturais e funcionais que aumentem as probabilidades de sobrevivência do organismo individual. Para compreender esse processo adaptativo é necessário compreender três conceitos fundamentais da teoria de Piaget: os conceitos de esquema, de assimilação e de acomodação.

O que são esquemas?
Quando nascemos nada sabemos acerca das pessoas e dos objetos do mundo a que teremos de nos adaptar nem das relações que se estabelecem entre as pessoas e as coisas. Contundo, começamos a adquirir conhecimentos de forma progressiva, por mais elementares que eles sejam no início. A nossa atividade reflexa assinala o despontar da adaptação cognitiva. Esta processa-se, nas primeiras semanas de vida, mediante esquemas baseados em reflexos inatos como chuchar, agarrar, etc.

Os esquemas são padrões de comportamento e de pensamento que organizam a nossa interação com o meio. São padrões de ação e estruturas mentais que, organizando a nossa experiência, estão envolvidas na aquisição de conhecimentos.

Durante os primeiros meses de vida os esquemas baseiam-se em ações. Os objetos são agrupados conforme as ações que as crianças realizam. Assim, chupando e agarrando, as crianças criam categorias de objetos que podem ser chupados e agarrados. Estes esquemas baseados em outros esquemas – chupar e agarrar – são a forma de as crianças “marcarem mentalmente os objetos com os quais se relacionaram”.

"Os primeiros esquemas estão imediatamente ligados a ações que ‘aqui e agora’ a criança realiza. Assim, um bebé ter um esquema – o de sucção – na maior parte dos casos aplicado a mamilos; o esquema ‘agarrar e abanar’ aplicado à manipulação de rocas e o esquema ‘sorriso’ aplicável a rostos humanos. À medida que a criança cresce e se dá o desenvolvimento intelectual, novos e mais sofisticados esquemas surgem cada vez menos ligados a objetos que estejam presentes no meio imediatamente envolvente e a ações atuais.A partir de um determinado estádio do desenvolvimento os esquemas constituem-se baseando-se mais em relações funcionais e concetuais do que ações. Assim, as crianças em idade pré-escolar aprendem que garfos, facas e colheres formam um esquema ou categoria funcional denominado ‘coisas que uso para comer’. Ou aprendem que gatos e cães constituem uma categoria mental ou esquema denominado ‘animais domésticos’.Tal como as crianças em idade pré-escolar, outras crianças e adolescentes usam esquemas baseados em relações funcionais e concetuais. Os adolescentes constroem também esquemas baseados em propriedades abstratas. Por exemplo um adolescente constituirá o esquema ou categoria mental ‘ideologias que desprezo’ aí integrando o fascismo, o nazismo, o racismo e o sexismo."

[Peter Gray, Psychology, Worth, 2ª edição, p. 433]  


02/12/2012

Fatores Gerais do Desenvolvimento Cognitivo

Primeiro fator: a hereditariedade, a maturação interna. Este fator deve, com certeza, ser considerado sob todos os pontos de vista, mas é insignificante, porque não atua isolado.Segundo fator: a experiência física, a ação sobre os objetos. Constitui também um fator essencial, que não se trata de subvalorizar, mas que por si só é insuficiente. A lógica da criança, em especial, não advém da experiência dos objetos, mas sim das ações exercidas sobre os objetos, o que não é de maneira nenhuma a mesma coisa, isto é, a parte ativa do individuo é fundamental, não bastando a experiência extraída do objeto.
Terceiro fator: a transmissão social, o fator educação no sentido lato. Fator determinante, sem dúvida, no desenvolvimento, mas só por si insuficiente, pela seguinte razão evidente: para que uma transmissão seja possível entre o adulto e a criança, ou entre o meio social e a criança educada, é necessário que haja, por parte da criança, assimilação do que se pretende inculcar-lhe de fora. Ora, esta assimilação é sempre condicionada pelas leis deste desenvolvimento parcialmente espontâneo.Quero falar de um quarto fator a que chamamos equilibração […] É que uma descoberta, uma noção nova, uma afirmação, etc., deve equilibrar-se com as outras. É necessário todo um jogo de regulações e de compensações para chegar a uma coerência. Emprego a palavra “equilíbrio” não num sentido estático, mas no sentido de uma equilibração progressiva, sendo a equilibração a compensação por reação do individuo às perturbações exteriores, compensação que conduz à reversibilidade operatória no final deste desenvolvimento.
Piaget, Problemas de Psicologia Genética

O desenvolvimento cognitivo, processando-se através de estádios cuja ordem de sucessão é invariante e cujas aquisições são progressivamente mais complexas (incorporando enquanto transformadas as aquisições prévias), é influenciado pela ação combinada dos fatores indicados por Piaget.
Os fatores explicativos do desenvolvimento cognitivo são:
  1. A hereditariedade e a maturação física – Piaget refere-se a mudanças biologicamente determinadas no desenvolvimento físico e neurológico que ocorrem de forma relativamente independentemente em relação às experiências.
  2. A experiência – por ela entende Piaget, não o simples registo passivo dos dados da experiência mas sim a atividade do sujeito sobre os objetos – física e mental – que permite distingui-los e organizá-los. Através dessa atividade dá-se a formação de estruturas ou de esquemas que possibilitem a ação e a compreensão da realidade.
  3. A transmissão social – Piaget refere-se ao processo através do qual somos influenciados não pela nossa atividade própria mas pelo contexto social, pela observação dos outros e pela educação.
  4. A equilibração – cada novo estádio define-se pelo surgimento de novos esquemas e estruturas ou de estruturas e esquemas mais complexos. A equilibração assegura formas de equilíbrio cada vez mais estáveis na adaptação ao meio.
Para Piaget o desenvolvimento cognitivo implica que a atividade do sujeito na interação com o meio responda aos desequilíbrios cognitivos procurando atingir um estado de equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, mecanismos de adaptação ao meio.