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30/07/2012

O valor/possibilidade do conhecimento


  • É possível um conhecimento seguro e objectivo?
  • Há conhecimento universal, isto é, válido para todos ou todo o conhecimento é relativo?
  • Quais serão os limites do conhecimento? Podemos conhecer todo o tipo de objectos?
Dogmatismo
É a doutrina que defende ser possível ao homem atingir verdades absolutas, isto é, conhecimentos objectivos, caracterizados pela universalidade e necessidade.
O dogmatismo encontra no racionalismo uma forma de se afirmar. De facto, todos os racionalistas assumem, de uma maneira geral, uma atitude optimista quanto às possibilidades do conhecimentos. Desde que as pessoas façam uso da razão de acordo com as regras lógicas, tudo podem conhecer e explicar, nomeadamente Deus e a alma (questões metafísicas). O dogmatismo defende a apreensão absoluta da realidade pelo sujeito.
Assim, o dogmatismo é a crença de que podemos obter conhecimentos seguros e certos e de que o nosso poder de conhecimento pode abarcar progressivamente toda a realidade. Descartes julgava possível a descoberta, simplesmente através da razão, de todos os segredos da realidade. 

Cepticismo
Doutrina que nega ao Homem a possibilidade de um conhecimento objectivamente válido.
Em oposição ao dogmatismo, os cépticos sustentam a tese de que é impossível atingir qualquer certeza, isto é, defendem que não se pode afirmar nenhum conhecimento como sendo infalivelmente verdadeiro - é impossível atingir qualquer certeza.
Nenhuma proposição universal pode ser declarada necessariamente verdadeira. A verdade dos conhecimentos ou proposições universais que constituem a ciência é contingente (podem vir a revelar-se falsas).
Dúvida não só de que seja possível conhecer toda a realidade, mas sobretudo de que seja possível alcançar conhecimentos firmes e seguros.

Criticismo
O Criticismo (posição intermédia) afirma que a razão pode alcançar conhecimentos firmes e seguros, embora limitados ao âmbito dos objectos empíricos. Em relação ao problema do valor e limites do conhecimento, Kant adopta uma posição crítica, acabando por determinar os limites dentro dos quais o Homem tem possibilidade de conhecer a realidade. Em comum com o racionalismo dogmático, tem confiança nas capacidades da razão para atingir o conhecimento verdadeiro. A ciência é possível enquanto conhecimento fenoménico do universo. Porém, afasta-se do dogmatismo ao considerar que, a nível de conhecimento nem tudo é possível, havendo limites intransponíveis - é impossível o conhecimento de entidades metafísicas (só podemos conhecer aquilo que é dado pela experiência sensível e ordenado posteriormente pelo entendimento).


27/07/2012

Apriorismo (Kant)

Entre as várias teorias defensoras de que o conhecimento tem uma dupla origem, isto é, que provém dos sentidos e da razão, conta-se o apriorismo Kantiano. Que quer dizer a priori?

A priori refere-se a algo que é anterior e independente da experiência. Esta noção é mais facilmente compreendida se nos reportarmos ao universo dos computadores.
Quaisquer que sejam os dados que recebe do exterior, o computador necessita de estar equipado com um programa prévio para ser capaz de processar esses dados. O programa do computador assemelha-se aos elementos a priori com que o sujeito nasce e que são a sensibilidade e o entendimento.
Os elementos introduzidos pelo teclado, ou por qualquer outro dispositivo periférico, comparam-se aos dados provenientes do mundo: os dados que, sendo captados pelos órgãos sensoriais, vão ser interpretados pelo entendimento.
Kant considera que no conhecimento intervêm dois elementos: o sujeito e o objecto. O sujeito é referido como forma e o objecto como matéria. O sujeito ou forma é o ser humano equipado previamente com estruturas cognitivas: a sensibilidade e o entendimento. O objecto ou a matéria é o mundo exterior ao sujeito, é aquilo que há para ser conhecido.
O conhecimento resulta, segundo este pensador, dos dados proveniente da experiência, captados pela sensibilidade, e que vão ser submetidos à acção interpretativa do entendimento.

Por outras palavras, para que haja conhecimento, as impressões captadas pela sensibilidade têm de ser organizadas por algo que pertence ao sujeito e que é anterior e independente da experiência: as categorias do entendimento. Por exemplo, quando dizemos que "o calor dilata o ferro" expressamos um conhecimento que tem na sua base a experiência, mas que pressupões a ordenação segundo conceitos ou categorias - como "substância", "causa", "efeito", etc, -, que são, segundo Kant, constitutivas da razão humana. Em Kant, o conhecimento caracteriza-se pela ultrapassagem da dicotomia sentidos-razão, em virtude de ambos terem a sua quota-parte no conhecimento.

Kant vai conciliar o Empirismo com o Racionalismo.


25/07/2012

Origem do Conhecimento


  • De onde vem o nosso conhecimento?
  • Qual a faculdade do homem que lhe permite construir o conhecimento?
  • De onde surgem as representações que construímos da realidade?
  • Qual a fonte principal do conhecimento: a razão ou a experiência?

As duas correntes que ao longo da tradição filosófica se confrontaram com esta questão foram o Empirismo e o Racionalismo.

Empirismo
É um modelo que responde ao problema da origem do conhecimento. Para o Empirismo todo o conhecimento tem origem na experiência, os sentidos são a principal fonte do conhecimento. Para os empiristas não há conhecimento que seja independente da experiência. Um dos principais representantes da corrente empirista, o filósofo inglês John Locke, traduz esta tese dizendo que nada pode existir na mente que não tenha antes passado pelos sentidos. É esta a máxima empirista acerca da origem do conhecimento. A mente (a razão) é uma "folha em branco", em "câmara vazia" na qual não há nada (nenhuma ideia, nenhum conhecimento) antes da experiência. Todo o nosso conhecimento procede da observação empírica e da aprendizagem. Não existem ideias inatas, isto é, ideias que a razão descubra em sim mesma independentemente de qualquer experiência.
" O espírito, a razão humana, é como um papel em branco no qual nada está escrito antes da experiência começar a escrever nele." (Locke)
É através da experiência que vamos construindo as ideias, ou seja, que vamos escrevendo nessa folha de papel em branco. Segundo o Empirismo, o conhecimento adquire-se da seguinte forma: os objectos vão criar impressões que ficam na nossa mente formando as ideias, então as ideias são o resultado do que fica na mente das impressões que os objectos causam aos sentidos. O Empirismo procura mostrar que a razão não é propriamente criativa - ela não pode criar conhecimentos a partir de si mesma, só ode usar materiais extraídos da experiência.

Racionalismo
Para o Racionalismo todo o conhecimento tem origem na razão e é ela que permite o acesso à verdade. Só a razão permite conhecimentos universalmente válidos e necessários. A razão é a única fonte de conhecimento válido. Os racionalistas não excluem de modo absoluto a experiência sensível, mas esta está sujeita a enganos. As informações que os sentidos nos proporcionam são confusas e não merecem o nome de conhecimento verdadeiro (apenas pela razão se alcança um conhecimento claro e distinto das coisas).
Em suma, o racionalismo concedeu o primado à razão. Afirma que na base de todo o conhecimento estão conhecimento que a razão tira de si mesma. Dirá, portanto, que a redução de todo o conhecimento a experiências directas é impossível e procura mostrar que sem os elementos que a razão tira de si mesma nem a aprendizagem com a experiência seria possível. A experiência, para o racionalista, pode ser importante enquanto fonte de problemas ou como momento de verificação de soluções, mas, em sentido estrito, não ensina, não "extraímos" conhecimento dela. Ela apenas força a razão a procurar em si (ou a construir por si) o conhecimento. Os racionalistas consideram que o conhecimento científico é a forma superior do conhecimento racional e que a razão é a base de todo o conhecimento válido. Os conteúdos da experiência por si sós não geram conhecimento válido e terão de ser organizados e explicados pela razão.


22/07/2012

Senso Comum vs Ciência

Senso Comum
Pouco metódico e sistematizado - os seus conteúdos não estão relacionados entre si, não formam um conjunto organizado e coerente. Por isso, para uma mesma situação, facto ou acontecimentos encontramos posições incompatíveis: "Longe da vista longe do coração" e "A distância faz o coração bater mais forte".
Assim, acumula conhecimentos de forma não sistemática.
Acrítico e subjectivo - exprime-se através de opiniões que não se sabem fundamentar e é particular (incide sobre situações particulares da experiência quotidiana e vivencial). Acrítico porque se satisfaz com o resultado imediato da observação, pensa ingenuamente que descrever é explicar.
Predomínio da descrição sobre a explicação - descreve o que ocorre e não por que ocorre assim, as explicações dadas são incompletas (não dá uma explicação nem uma compreensão da verdadeira natureza da realidade).
Conhecimento essencialmente prático - trata principalmente do modo como temos de agir, do que fazer para construir isto ou aquilo, das regras de comportamento que devemos cumprir na relação com os outros.

Ciência 
Metódico, sistematizado e rigoroso - a ciência procura, para lá das aparências, encontrar uma imagem fiel e correcta do mundo dos factos e adopta métodos e técnicas que evitem ser presa das aparências.
Racional e explicativo - é um conhecimento que utiliza raciocínios, provas e demonstrações para ir além da experiência e obter conclusões mais precisas e rigorosas acerca do funcionamento da natureza. Vai além do aparente, dá uma ordem e sentido à caótica diversidade dos dados sensoriais. Tem um poder explicativo, mediante leis e teorias, muito superior ao do senso comum.
Não se contenta com a visão superficial da descrição do que acontece (aparente) e quer apreender o porquê do que acontece (ir além do aparente dado pelo senso comum ou conhecimento vulgar).
O objecto da ciência - formulação de leis que regem os fenómenos, que permitem controlar a natureza e pô-la ao serviço do Homem.


21/07/2012

Características do conhecimento vulgar

O conhecimento vulgar é o primeiro nível de conhecimento e constitui-se a partir da apreensão sensorial espontânea e imediata do real. Corresponde, assim, à nossa forma imediata de apreender o real que não resulta de nenhuma procura sistemática e metódica, nem exige qualquer estudo prévio.
O senso comum é, assim, indisciplinar e não metódico, na medida em que não decorre de nenhum plano prévio - apenas surge espontaneamente no suceder quotidiano da vida. Por isso, o senso comum é prático, na medida em que é com base nele que orientemos a nossa vida quotidiana.
O conhecimento vulgar ou popular, às vezes denominado senso comum, (...) é o modo comum, corrente e espontâneo de conhecer, que se adquire no trato directo com as coisas e os seres humanos: é o saber que preenche a nossa vida diária e que se possui sem o haver reflectido sobre algo (...). O conhecimento popular caracteriza-se por ser predominantemente:
- superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode comprovar simplesmente estando junto das coisas: expressa-se por frases como "porque o vi", "porque o senti", "porque o disseram", "porque toda a gente o diz";
- sensitivo, ou seja, referente a vivências, estados de ânimo e emoções da vida diária;
- subjectivo, pois é o próprio sujeito que organiza as suas experiências e conhecimentos, tanto os adquire por vivência própria quanto os por "ouvir dizer";
- assistemático, pois esta "organização das experiências não visa uma sistematização das ideias, nem na forma de adquiri-las nem na tentativa de validá-las;
- acrítico, pois, verdadeiro ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam não se manifesta sempre de forma crítica.
I. Lakatos, Metodologia Científica, São Paulo 

Todavia, este conhecimento, sendo comum a todos os homens, é imprescindível para a resolução dos seus problemas do quotidiano, permitindo-lhes orientarem-se no mundo.
Podemos, a esta altura, resumir as principais características do conhecimento vulgar:
  • espontâneo e imediato;
  • sensitivo;
  • superficial;
  • subjectivo;
  • assistemático e desorganizado;
  • imetódico e indisciplinar;
  • dogmático e crítico.

O conhecimento vulgar pode definir-se, portanto, como o conjunto desorganizado de opiniões subjectivas, pressentimentos, preconceitos e ideias feitas que nos conduzem a uma conhecimento superficial e funcional, embora, por vezes, erróneo da realidade.


19/07/2012

A incomensurabilidade dos paradigmas

A tese mais controversa da filosofia da ciência de Kuhn é a seguinte:
Os paradigmas são incomensuráveis.

Isto significa que, numa situação em que dois paradigmas se confrontam, não se podem compará-los objectivamente de modo a concluir que um deles é superior ao outro. Os paradigmas não podem ser escolhidos mediante uma comparação objectiva, realizada a partir de critérios completamente neutros.

Kuhn pensa, portanto, que a objectividade científica é muito limitada. A ciência faz-se sempre à luz de um certo paradigma e a mudança de paradigma que ocorre numa revolução científica é comparável a uma conversão religiosa. Os cientistas aceitam ver o mundo de uma nova forma e fazer ciência de acordo com novas regras, mas são incapazes de oferecer uma justificação completamente racional e objectiva para a sua decisão.
A tese da incomensurabilidade dos paradigmas leva Kuhn a defender o seguinte:
As mudanças de paradigma não envolvem uma aproximação à verdade.

17/07/2012

A Racionalidade Científica e a Questão da Objectividade

Popper é anti-empirista, antiverificacionista e anti-indutivista, mas não pôs em causa a racionalidade da ciência (definiu-se como um racionalista crítico) nem a objectividade científica. Acredita na objectividade da ciência, pensa que as teorias científicas são descrições da realidade, ainda que imperfeitas, e que à medida que o conhecimento científico avança, vamo-nos aproximando da verdade, obtendo uma imagem cada vez mais correcta da realidade.
Kuhn (1922-1996) rejeita esta perspectiva. Este e outros "epistemólogos da suspeita" tornaram-se corrosivos dos grandes títulos da ciência: racionalidade, verdade, objectividade, universalidade, etc. A sua posição sobre o desenvolvimento da ciência pode sintetizar-se do seguinte modo:

  • Para Kuhn a história de uma disciplina científica é uma sucessão paradigmas.
Paradigma - conjunto de procedimentos teóricos, leis e processos metodológicos que constituem um modelo explicativo de uma época e que orientam a investigação num determinado domínio ou área disciplinar. Um paradigma é toda uma forma de fazer ciência. Regula todo o trabalho científico numa certa área de investigação (inclui diversas espécies de regras: para aplicar a teoria à realidade, para usar instrumentos científicos e regras para avaliar explicações científicas).

A constituição de uma ciência inicia-se com a emergência de um paradigma e dura enquanto se mantém o acordo entre os membros da comunidade científica. É o período da ciência normal.
Consiste na actividade de resolução de enigmas conduzida sob um paradigma. Num período de ciência normal, os cientistas não estão interessados em refutar ou avaliar criticamente a teoria central do paradigma. O que lhes interessa, pelo contrário, é aumentar a credibilidade dessa teoria, aplicá-la a novos campos.
Mas a actividade de resolução de enigmas nem sempre corre da melhor maneira. Por vezes os cientistas não conseguem ajustar a realidade ao paradigma. Isto é, descobrem que os pressupostos teóricos do paradigma não estão de acordo com aquilo que se observa na natureza. Quando as tentativas de resolver um enigma fracassam, surge uma anomalia. As anomalias são vistas pelos investigadores como refutações, como provas de que os seus pressupostos são falsos (crise paradigmática).
O paradigma entra em crise - durante uma época de crise, a confiança no paradigma fica seriamente abalada  e a investigação tranquila que caracteriza a ciência normal dá lugar a um período de ciência extraordinária.
Acaba por surgir uma teoria alternativa que proporciona um novo paradigma, uma nova forma de fazer ciência dentro da área disciplinar em questão. A comunidade científica fica assim dividida: os partidários do velho paradigma opõem-se aos defensores do novo.
Opera-se uma revolução científica quando estes últimos triunfam, levando a maior parte da comunidade científica a aceitar o novo paradigma (novos acordos intersubjectivos).
Inicia-se então outro período de ciência normal.


16/07/2012

Objecção, segundo Karl Popper

Se a hipótese é um enunciado geral porque pretende ser a explicação para todos os casos da mesma espécie, e se os factos deduzidos com que se pretende validá-la, são particulares, será que, comprovada a consequência, ficará comprovada a hipótese?

Hipótese - consequência
Verificação da consequência
Logo, hipótese válida.

Ora, da prova do consequente não se pode logicamente inferir que o antecedente fique provado (raciocínio falacioso).
Assim sendo, a atitude a adoptar perante uma hipótese é esta: perguntar "Pode ser refutada?" e não "Pode ser verificada?".
A estratégia da confirmação ou da verificação (possibilidade contestada por Popper - de provar que uma hipótese ou teoria é verdadeira) é substituída pela estratégia da refutação. Segundo Popper, as experiências têm por função não a verificação das hipóteses, mas a sua refutação.
E se não for refutada, se resistir à tentativa de a refutar ou falsificar? Não diremos, segundo Popper, que foi provada, mas sim "corroborada". Corroborar uma hipótese significa dizer isto: não conseguimos refutá-la (mostrar que é falsa), pelo que podemos aceitá-la provisoriamente (pode, no futuro ser refutada). Para Popper, os cientistas devem contentar-se em ver as suas hipóteses refutadas e não em vê-las verificadas ou aprovadas. Com efeito, como critério da verificação não tem validade lógica, basta um facto contrário para refutar uma hipótese, mas nenhum nº de factos favoráveis é suficiente para a confirmar.
Como podemos constatar, a lógica de procedimento científico proposta por Popper está de acordo com o Modus Tollens:

Hipótese - consequência
Verificação da consequência
Logo, hipótese válida.

Nesta perspectiva, sob o ponto de vista lógico, uma teoria ou hipótese nunca é comprovada podendo, apenas, ser refutada. Uma teoria científica aceita-se enquanto hipótese, enquanto meras conjectura. Ela terá tanto mais possibilidades de se manter quanto maior for o nº de casos de falsificação a que se submeta e esses casos se revelem infrutíferos. Podemos continuar a aceitá-la enquanto esta sobreviver aos testes, mas é de esperar que um dia a teoria seja falsificada, portanto, que surja a necessidade de encontrar uma teoria melhor. Deste modo, salienta Popper, o conhecimento cientifico é sempre falível: a nossa procura de teorias verdadeiras sobre o mundo nunca nos dá certeza de que essas teorias são verdadeiras.
As teorias científicas deixam de ser consideradas verdadeiras e só podem ser consideradas "aceitáveis", "verossímeis" ou "corroboráveis" (aproximações progressivas à verdade). A verdade é um ideal inalcançável de que as teorias científicas são versões aproximadas. Contra a atitude dogmática que procura verificar as teorias, Popper um "racionalismo crítico" que procura refutá-las submetendo-as a testes incessantes. Nunca podemos afirmar que uma teoria é verdadeira, unicamente que é falsa. Só podemos dizer que ainda não mostrámos que é falsa. Devemos considerar todas as leis e teorias como conjecturas que sobrevivem enquanto resistem aos testes destinados a refutá-las.
Popper altera a relação da ciência com a verdade, põe fim à busca de uma certeza na ciência. A ciência progride mediante a refutação de conjecturas falsas. Defende a ideia de "revolução permanente", ou seja, de reformulações constantes no interior do conhecimento científico. 


14/07/2012

Verificacionismo e Falsificacionismo

Verificacionismo  (perspectiva verificacionista):
A tese classicamente aceite nos meios científicos é a de que as experiências laborais se destinam à verificação das hipóteses. Quer dizer, uma hipótese é aceite como válida, se a observação dos factos empíricos mostrar acordo com a hipótese. A experiência é usada com o propósito de confirmar e verificar a hipótese - trata-se da perspectiva verificacionista, a qual entende o teste experimental como a procura de experiências que confirmem a hipótese.

Falsificacionismo (perspectiva falsificacionista)
A experiência é usada com o propósito de testar a resistência da hipótese à sua falsificação - trata-se da perspectiva falsificacionista, a qual entende o teste experimental como a procura de fenómenos que possam infirmar a hipótese. Esta perspectiva é defendida por K. Popper:

- Quando testamos uma hipótese, o que pretendemos?
- Tentamos mostrar que é verdadeira?
- E, se é esse o nosso objectivo, será possível realizá-lo? Não nos devemos limitar a tentar refutá-la e ver se resiste à tentativa de a falsificar (de a declarar falsa)?

Segundo Popper, as hipóteses são enunciados universais e como tal não podem ser verificadas. Isso exigiria que se observassem todos os casos particulares passados, presentes e futuros, o que é impossível  (por maior que seja o nº de observações particulares, não há justificação lógica para a sua generalização a todos os casos. Há sempre a possibilidade de factos ainda não observados virem a contradizer a conclusão). Não podemos mediante a observação e a experimentação mostrar que as nossas hipóteses são verdadeiras. A única coisa que, segundo Popper, os cientistas fazem é mostrar ou que são falsas ou que ainda não foi provada a sua falsidade (muito diferente de dizer que são ou ainda são verdadeiras). 
Se pensares com atenção, podes perceber que a verificação não é um processo logicamente correcto. Com efeito, nenhuma Lei lógica autoriza que a verdade do consequente seja a garantia da verdade do antecedente (quem pensa que a comprovação das consequências que deduzimos da hipótese implica a comprovação da hipótese está a cometer a falácia da afirmação do consequente).

Hipótese - Enunciado Geral - Consequência deduzida - Verificação - Facto Particular - Valida-se a consequência e não a hipótese em geral. 


12/07/2012

Método Hipotético Dedutivo

O método hipotético-dedutivo é, tal como indutivo, um método das ciências empíricas ou factuais.
K. Popper, crítico do indutivismo, foi quem lançou as principais bases do método hipotético-dedutivo, e do critério de falsificabilidade (falsificacionismo). 

Este método pode ser dividido em 5 etapas:

1º- Formulação de um problema - "Facto - Problema"
Formulação de problema para o qual vamos procurar uma resposta (a questão inicial da investigação). A procura do saber começa com a emergência de um problema e não com a captação de factos puros e simples.
Exemplo:
"O salmão prateado nasce nas correntes frias do noroeste do oceano Pacífico. O pequeno peixe nada até ao Pacífico sul, onde poderá passar até cinco anos para atingir a maturidade física e sexual. Em seguida, em resposta ao estímulo desconhecido, volta às correntes frias para desovar. Acompanhando o roteiro do peixe, descobre-se um facto curioso. Quase sempre ele volta precisamente ao seu local de origem. Eis aqui um facto - problema pede explicação. Como é possível que o peixe identifique exactamente o lugar onde nasceu, depois de tantos anos e de percorrer tão longa distância?"

2º - Formulação da hipótese ou conjectura:
Hipótese 1: O salmão identifica o seu caminho de volta por estímulos visuais.
Hipótese 2: O salmão identifica o caminho de volta através do olfacto.
Assim: uma hipótese será um enunciado que se propões como base para explicar por que motivo ou como se produz um fenómeno ou um conjunto de fenómenos interligados. A causa que permite explicar os fenómenos ou factos problemáticos não se oferece espontaneamente ao observador como se fosse um dado empírico evidente. A bem dizer, ela está oculta e, por isso, é necessário imaginá-la, supô-la. Enquanto solução antecipada que vai ser submetida a teste, a hipótese é o eixo em torno do qual gira a investigação.

3º - Dedução de consequências da hipótese
Depois de a hipótese ter sido reformulada, são deduzidas as suas principais consequências.
Dedução das consequências da hipótese 1: O salmão, com os olhos vendados, não será capaz de regressar. 
Dedução das consequências da hipótese 2: Bloqueado o olfacto, o salmão será incapaz de identificar o caminho de regresso.
Este passo de método consiste em deduzir da hipótese determinadas consequências. Este momento do método tem a sua razão de ser no facto da, na maioria dos casos, a hipótese, dada a sua generalidade, não pode ser confrontada directamente com a experiência. Deduzem-se então determinadas consequências da hipótese, ou seja, torna-se esta mais específica. Ao que se deduz da hipótese dá-se o nome de enunciados observacionais ou empíricos, que vão ser testados pela experiência. A aprovação da hipótese depende da passagem das implicações dela deduzidas no teste da experiência.

4º - Comprovação/confrontação das consequências deduzidas mediante várias experiências, repetidas e controladas. 
Assim, a hipótese é finalmente testada, experimentada, confrontada com a experiência. Os resultados da experiência podem validar a hipótese, ou podem invalidá-la.
Assim: Verificação das consequências - validação (lei) ou não validação.
- Se for validada pela experiência, a hipótese pode adquirir o estatuto de lei científica (leis = enunciados que descrevem relações necessárias entre os fenómenos). Se as observações comprovam a relação que a hipótese estabelece, pode concluir-se que se trata de uma boa hipótese, pelo que passa a enunciar-se sob a forma de lei.
- Se não for validade, teremos de abandonar ou reformular a hipótese inicial.

5º - Lei ou teoria científica 
Confirmada a hipótese, esta passa a ser aceite como lei, um anunciado que nos permite conhecer a realidade. Uma lei tem o estatuto de lei científica porque foi provada, construída e testada com base no método científico.

Verificabilidade ou Falsificabilidade
É na 4ª etapa do método hipotético-dedutivo (experimentação) que se coloca a questão da validação da hipótese.
O confronto com a experiência é o critério de referência para validar uma hipótese:
- Se a experiência vai de encontro à hipótese, a hipótese é comprovada;
- Se a experiência contrariar a hipótese, a hipótese é afastada.
A questão que se levanta não é, portanto, a de saber qual o critério de validação de uma hipótese, mas justamente a de saber qual a validação mais legítima (se por verificação ou refutação).

11/07/2012

Objecções ao Indutivismo

O método indutivo tem sido alvo de inúmeras críticas:
- A primeira tem a ver com a observação. Não existe observação pura porque existem em nó expectativas e conhecimentos anteriores às observações. Essas expectativas e conhecimentos influenciam o que realmente vemos. Logo, as observações não são imparciais (essas expectativas interferem nas observações).  Segundo Popper, a observação num contexto científico é sempre "selectiva" porque escolhem apenas os aspectos da situação que lhes interessam para o seu estudo). Para que haja observação é necessário que haja um objecto escolhido, uma tarefa definida, um interesse prévio, um ponto de vista, um problema que se pretende resolver.
Dado que não é possível registar todos os factos empíricos, temos de seleccionar o que havemos de observar e fazemo-lo em função dos nossos interesses e expectativas teóricos.
Por exemplo, perante o mesmo cenário  um cientista interessado em lesões não registaria os mesmos factos que um cientista interessado em formigas.

- (2ª objecção) As teorias científicas referem objectos que não podem ser observáveis. Imaginemos, por exemplo, uma lei da Física sobre electrões. Os electrões não podem ser observados directamente. Por isso, essa lei pode ser vista como conclusão de um argumento indutivo cujas premissas referem apenas objectos que podem ser observados directamente (teorias científicas que referem objectos como neutrinos e electrões, genes e moléculas de ADN, são objectos não observáveis. Logo, essas teorias não podem ter sido desenvolvidas mediante simples generalizações indutivas baseadas na observação). Para ir além do mundo imediatamente observável, não podemos limitar-nos a fazer generalizações indutivas a partir daquilo que observamos (o indutivista diz-nos que as teorias científicas são generalizações formadas a partir da observação de casos particulares).

- A crítica dirigida por D. Hume (), cuja concepção aponta o carácter ilusório do indutivismo. De facto, a relação de causa-efeito que se estabelece entre os fenómenos decorre da sua repetição: depois da repetição de casos semelhantes, o espírito é levado, por hábito, ao aparecimento de um acontecimento, a esperar o que habitualmente o acompanha e a acreditar na sua experiência. 
Neste sentido, a generalização nada mais será que uma mera crença psicológica de que os factos se repitam daquele modo. 
Ex.:
- Falto à aula de Matemática e tenho má nota no teste;
- Falto à aula de Inglês e tenho má nota no teste;
- Faltar às aulas é a causa dos maus resultados nos testes.

Esta generalização ou indução pode estar correcta, mas pode igualmente estar errada. Isto porque, embora habitual e repetidamente tenha maus resultados quando falta às aulas, tal não significa que essa seja a sua verdadeira razão. Com efeito, a repetição e o hábito não são uma garantia segura para a generalização (não é um procedimento credível).
Apesar desta crítica, J. Stuart Mill (1806-1873) retoma a inspiração baconiana e acredita que é na indução que reside a especificidade metodológica da ciência.
Todavia, um outro crítico do método indutivo, K. Popper, não acreditaria que a especificidade metodológica da ciência resida na indução, mas sim no método hipotético-dedutivo.


08/07/2012

Método Indutivo


  • É usado nas ciências empíricas ou factuais (Física, Biologia, etc)
  • Ao contrário do dedutivo, parte do particular para o geral, isto é, parte da observação dos factos particulares para chegar a uma verdade geral ou universal.
São 3 as principais etapas do método indutivo (ou 3 momentos fundamentais para chegar à teoria científica):
  1. Observação dos fenómenos
  2. Descoberta da relação entre os fenómenos
  3. Generalização da relação (leis unificadoras)
1- Observação do fenómeno (registo e classificação de factos empíricos)
A Ciência parte da observação. O cientista deve começar por registar aquilo que observa de modo a poder encontrar as suas causas. Este registo deve ser realizado de modo objectivo ( sem estar influenciado por quaisquer teorias ou expectativas) e a observação deve ser repetida (é importante registar uma grande quantidade e diversidade de factos).

2 - Descoberta da relação entre os fenómenos: partindo dos factos devidamente catalogados, o cientista descobre certas regularidades (procura-se aproximar os factos para descobrir a relação entre eles).
Ex: Um cientista que observou o que acontece aos mais diversos objectos quando são aquecidos e que registou as suas observações. Ao analisar os seus registos, descobre, por exemplo, que os objectos de vidro se quebraram, mas que os de cobre dilataram. Por indução, infere estas leis: "Todo o vidro quebra quando é aquecido" e "Todo o cobre dilata quando é aquecido".
As leis que constituem as teorias científicas são descobertas através deste tipo de inferência. 

3 - Generalização da relação/aplicação da teoria a novos factos empíricos tendo em vista a sua confirmação. Estando na posse das leis, o cientista usa-as no momento 3, para explicar ou prever novos acontecimentos. O seu objectivo é encontrar mais factos que confirmem a sua teoria - mais pedaços de vidro que quebrem ou pedaços de cobre que dilatem sob aquecimento. Generaliza-se a relação encontrada entre os factos semelhantes em leis em expressam as relações constantes entre esses factos. Pode encontrar a partir das leis já descobertas para, também por indução, encontrar leis ainda mais gerais. Por exemplo, se descobrir que outros tipos de metal se comportam como o cobre, pode estabelecer esta lei mais geral: "Todo o metal dilata quando é aquecido".

03/07/2012

Estratégias manipuladoras

Aposta na sedução e na sugestão; aquele que manipula, diferentemente da situação de persuasão e de argumentação, não se dirige à inteligência do outro, não tenta convencê-lo com razões, mas actua de forma ardilosa, explorando habilmente as fraquezas das pessoas.

O discurso manipulador tende a suprimir os problemas quando a sua discussão aberta poderia comprometer a adesão do auditório; por exemplo, é frequente publicitarem-se bebidas alcoólicas, escamoteando os problemas que podem vir do seu consumo, acentuando apenas os aspectos sedutores nelas implicados; é normal publicitar-se um automóvel frente a uma paisagem deslumbrante, sem fazer qualquer referência ao preço, consumo ou outras características do produto que se está a vender.
Ao iludir as questões, a manipulação consegue mais facilmente levar as pessoas a adoptarem determinados comportamentos, considerados desejáveis na óptica daquele que manipula. 

As estratégias manipuladoras manifestam-se sobretudo em determinados tipos de publicidade e propaganda política através do uso demagógico da linguagem para obter a adesão do auditório.

Como enfrentar as estratégias manipuladoras?
Desenvolver o espírito e uma atitude de observação atenta é provavelmente um recurso que não podemos desprezar se quisermos evitar que as estratégias manipuladoras rendam dividendos.

O pensamento crítico implica:
  1. Avaliar a consistência dos argumentos (analisar se as razões são adequadas ou relevantes)
  2. Escrutinar as crenças que se aceitam sem fundamento racional, questionar crenças e posições que se tornaram fechadas ou dogmáticas, para denunciar os limites de tal pensamento, e abrir o caminho para um modo diferente de pensar.
Outro recurso complementar, seria o de generalizar, através da educação, o conhecimento das práticas retóricas e o desenvolvimento das respectivas competências. Se o auditório dominar competências retórico-argumentativas, vai ser um auditório exigente!

Este é um problemas que as sociedades democráticas têm de encarar com seriedade, até porque, hoje em dia, há especialistas em persuasão e manipulação que estão preparados para fazer apelo às nossas emoções mais primárias e que são capazes de nos levar a pensar e a fazer aquilo que pretendem que pensemos e façamos.

Assim, responder a estratégias manipuladoras implica conhecer e dominar práticas retóricas e desenvolver o espírito crítico.


02/07/2012

Persuasão e Manipulação - os dois usos da retórica

A persuasão (bom uso):
É uma situação comunicacional que visa operar uma mudança no comportamento do outro; aquele que persuade, embora parta do princípio de que sabe o que convém ao outro, encara-o como uma pessoa e procura respeitar os seus legítimos direitos. Envolve argumentos racionais e emocionais.

  • Visa operar uma mudança no comportamento;
  • Pretende levar em conta os legítimos interesses do outro;
  • Utiliza estratégias que visam o convencimento - ênfase nas razões, privilegia a discussão racional dos argumentos;
  • O auditório adere livremente à tese do orador;
  • Reconhece interesse na discussão racional dos problemas como forma de definir a verdade.
A manipulação (mau uso):
Quando no contexto das estratégias persuasivas se ultrapassam certos limites, podemos dizer que já não estamos perante persuasão, mas perante manipulação não há uso, mas sim um abuso da retórica.
Quem manipula não manifesta o propósito de respeitar os legítimos interesses daquele ou daqueles a que se dirige; aquele que manipula relega o outro ao nível de um objecto e não tem escrúpulos em usar todas as técnicas e todos os estratagemas, para o levar a adoptar uma determinada posição. Com muita frequência, os visados nem, sequer se aperceberem de que estão a ser manipulados (temos exemplos de casos históricos de manipulação política). É frequente a persuasão degenerar em manipulação e os legítimos interesses do auditório não serem levados em consideração; o grande objectivo é apenas a adesão do auditório. 
  • Visa operar uma mudança no comportamento (centrado nos resultados - na eficácia persuasiva);
  • Não manifesta o propósito de respeitar os interesses do outro;
  • Utiliza estratégias que têm por base a sedução e a sugestão - ênfase nas paixões. Os argumentos apelam às emoções, criando sedução e levando o auditório a uma adesão sem pensar;
  • A mensagem é imposta, não havendo liberdade na adesão, por parte do auditório, à tese do orador. Condiciona o auditório a uma adesão acrítica e, de certo modo, involuntária às posições do orador;
  • Visa principalmente os interesses do orador ou os da pessoa, ou grupo, que representa.